Fiquei estático por algum tempo. Foi tudo tão rápido que eu nem consegui processar os acontecimentos.
O vento voltou e a folha abandonada voou em direção ao lago. Me apressei e a segurei a poucos metros da água. Nela estava o mesmo logotipo estampado na camisa dos sequestradores. O melhor era guardar e analisar mais tarde. Alguém poderia me ver. Eles poderiam dar falta do documento e do aparelho e voltar. Nesse momento a imagem do aparelho me volta a mente como um raio. Olho para o local. Ele ainda está lá. Intocado. Antes que mais alguém o veja, me direciono até ele. Ele já está com uma camada de areia, em sua tela, levada pelo vento. Me abaixo e o retiro do chão.
É um aparelho um pouco pesado. Com o impulso à porta ele deve ter sido danificado. Está desligado. Coloco-o no bolso interno da blusa, junto a folha dobrada ao meio.
Levanto e olho tudo ao redor. Não há ninguém no local. Tento reconstituir a cena. A garota andando. O carro e os homens. A visão acaba e então em alguns minutos estou cruzando toda a extensão do parque, no sentido oposto ao que a garota caminhava. O parque já estava tomado pelas sombras.
Caminho para casa. Em todo o trajeto, o peso do bolso interno aumenta minha instabilidade mental. O que eu pretendo fazer com aquilo? Eu nunca havia visto aquela garota. Eu não precisava fazer nada. Mas eu deveria.
Chego no portão do prédio. Sr. Mario, o porteiro, me cumprimenta. Finjo o estado normal e subo. As escadas, vazias como sempre. O apartamento, número 23, no quarto andar, está tomado pelo silêncio. Acendo a luz, fecho a porta e me deparo com um pequeno gato caramelo de olhos cinza. Ele me encara de cima da bancada que divide a sala da pequena cozinha. Vou até a geladeira, pego um pouco de leite e coloco ao lado dele. Enquanto ele bebe, analiso sua coleira pela milésima vez, desde que o encontrei no fim da tarde passada. Apenas uma correia de couro com um pingente prateado em que havia um nome gravado. Nada dos convencionais dados para contato com o dono. Como se a pessoa tivesse muito apreço pelo animal, colocara o nome e tivera que abandonar o lindo filhote. Seu nome, apenas quatro letras floreadas no metal. Oren.
Volto a geladeira. Pego um copo de suco e vou para o quarto.
Uma cama, uma mesa, com um velho notebook, próxima a janela da qual eu vejo a rua de frente ao prédio. Não que desse para distinguir muita coisa à essa altura. Na outra parede, um pequeno guarda-roupa divide o espaço com uma estante de livros.
Vou até a mesa, esvazio os bolsos. Tiro o casaco e o guardo.
Sento e fico olhando o aparelho. Nada que eu pudesse reconhecer. Algo totalmente desconhecido para mim. Maior que um celular normal. Metade do tamanho de um notebook.
Olho cada detalhe e não vejo nem um sinal de parafusos.
Passo um longo tempo com ele na mão, em frente aos olhos. Imagino tudo o possível para abrí-lo e nada funciona.
O tempo está ameno. A brisa vinda da janela me embala. Quase adormeço na própria cadeira. O suco intocado. Levo o copo a boca e constato que a temperatura dele aumentou e que fiquei muito tempo sem notar nada ao redor.
Olho o relógio. Ele aponta nove e vinte dois da noite.
Levanto e vou para a cozinha. Despejo o suco quente pela pia e reabasteço o copo com o restante que estava na geladeira.
O gato, após beber todo o leite, caçou algum lugar quente para dormir. Com todo aquele acontecimento da tarde, esqueci de comprar uma pouco mais de ração para ele. Coloco o resto que estava no pequeno pacote em uma vasilha e a abaixo, com a promessa de comprar mais no próximo dia.
Oren aparece de qualquer lugar invisível e começa a comer.
Apago as luzes e vou para o quarto. Me jogo na cama e perco a consciência.
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O despertador toca às cinco da manhã.
Sento na cama e vejo o gato à meus pés.
Levanto e vou para o banho e depois tomo um café. Lavo as vasilhas que estavam sobre a pia.
Resolvo sair para comprar a ração. O tempo havia mudado. O brilho laranja do sol de ontem fora substituído pelo cinza tempestuoso. Hoje irá chover. Como tem sido nos últimos 4 anos.
Hoje, dia 16 de maio, completa cinco anos desde que meus pais foram mortos em uma tentativa de assalto. Não foi nada de outro mundo, esse tipo de coisas acontece com frequência por aqui. Eu tinha 16 anos. Meus parentes agora acham que sou frio.
Chorei um dia completo. No outro levantei com o pensamento de meus pais iam querer que eu seguisse em frente. Então eu enxuguei as lágrimas e estudei todos os meus direitos. Dez dias depois, na audiência para minha guarda, – nada além de uma pequena sala, um oficial de justiça, um promotor de cada lado de uma mesa, um ao meu lado e o outro ao lado da família do meu pai – eu levantei e disse:
''Eu quero ser levado para um orfanato.''
Eles me encararam, atônitos. Então protestaram. Disseram que eu estava me revoltando. Que eu estava abalado pela perda e não poderia estar em plena consciência.
A Oficial de Justiça estava concordando. Olhei para ela e falei, indignado:
''Tudo bem, mas se os bens de meus pais forem perdidos, eu vou entrar com uma ação contra o Estado, e, de acordo com meus direitos, eu tenho certeza que posso ganhar.''
Meu próprio promotor, um homem novo, sem muita experiência mas com um bom faro para o futuro, me encarrou pasmo. Ele não tinha a mínima ideia de onde eu tirara aquilo. Abaixei e peguei um enorme exemplar de uma bolsa. Direitos Processuais Civis. E dentro dele, um bom número de folhas amontoadas à esmo.
A Oficial de Justiça me olhou, como se reconsiderando sua opinião. Ela viu que eu poderia ter fundamentos. Mesmo assim, achou que eu poderia estar somente encenando. Depois que eu abri no artigo referente ao meu caso e recitei um parâmetro para ela, sua opinião mudou definitivamente.
Meus possíveis tutores só puderam gaguejar e então eu me livrei da falsidade deles.
Meus pais não tinham muita coisa para me deixar. Uma casa não muito nova, mas que fora comprada com muito esforço. Consegui com que ela fosse vendida. Não teria força para morar nela. O dinheiro foi aplicado, até que eu pudesse ser responsável por mim mesmo, e então ele estivesse à meu serviço.
Foi com isso que, depois de dois anos sombrios em um orfanato que poderia ser chamado purgatório, comprei um apartamento em um lugar praticamente esquecido.
Sem perceber havia chegado às portas do supermercado 24 horas.
Peguei tudo que precisava e me encaminhei para o caixa rápido.
Voltei para casa. A secretária eletrônica a piscar. Dois novos recados.
Coloco os sacos de papel em cima da bancada e aperto para escutá-los.
''Olá, Bruno. Não esqueça de passar aqui na delegacia para pegar sua recompensa. Ótimas fotos. Continue assim e possivelmente se tornará investigador. Tenha um bom dia.''
''Bruno! Aquelas fotos do cemitério que você prometeu, vão sair quando. Seu prazo está acabando. Os editores estão pressionando. Acho melhor você entregar elas logo.''
– Em pleno sábado, oito horas da manhã, e meu chefe já me estressando...
Eu falei que enviava para ele hoje. E o delegado Guilherme. Sempre em seu bom humor.
Guardo as compras, vou para meu quarto e me concentro no aparelho.
Na luz natural que entra pela janela, mesmo o sol muito encoberto, reparo que as laterais dele se voltam, criando uma espécie de circulo, não muito aparente.
Então pego o aparelho e o pressiono para a lateral. Ele faz um pequeno ruido e a parte de cima, onde havia o mesmo logotipo que me persegue, faz o contorno pelo fundo e volta para ficar fixa lateralmente ao fundo, criando assim um conjunto em formato de 'L' que se mostra ser uma tela e um pequeno teclado. O teclado é diferente de todos os outros já vistos por mim. Possui apenas dez teclas de acesso rápido, nada mais que um pequeno símbolo em cada uma, possivelmente indicando sua função.
A tela, evidentemente sensível ao toque porque o teclado não permitia opções de caracteres, estava meio trincada.
O botão que indica um desenho que representava o 'Ligar', mesmo pressionado, não surtia efeito no aparelho.
Resolvi catalogar todos os botões: 'Ligar/Desligar'; um com uma chave e uma fechadura que seria o 'Fechar'; uma borracha no 'Apagar'; um disco para 'Salvar'; algo como um cartão que pensei ser para conectar um dispositivo; a engrenagem de 'Configurações'; um ícone de uma câmera, para 'Gravar' alguma coisa; E então as surpresas, um isqueiro e uma explosão, que me pareceram, respectivamente ser o de 'Formatar' e 'Auto Destruição'... e por último um que me deixou extremamente feliz, uma chave de fenda, um botão para desmontar, e o melhor de tudo é que ele era de ativação mecânica e não eletrônica. Igual ao sistema para abrir-lo.
Aperto ele e o aparelho se abre, expondo seus conteúdos internos.
Ao abrir, um líquido denso está envolto a bateria. Por muita sorte, a bateria que estava danificada, certamente pelo choque do aparelho ao carro, era uma simples bateria de lítio. Algo que não seria nem um pouco difícil de achar. Talvez o modelo fosse a questão, mas eu tenho alguns contatos de uma loja no subúrbio que certamente me renderia algo.
Removo a bateria e limpo os resquícios de sua existência dentro do aparelho. A guardo em um pequeno plastico e anoto as dados da tela. Talvez eu conseguiria algo para ela também.
Sanadas as dúvidas de o que fazer com o aparelho, eu me direciono até a folha.
Ela havia caído para debaixo da cama durante meu sono. Abro e começo a ler.
A parte superior era tomada pelo logo. O restante era um emaranhado de palavras que não estavam em português, apenas as primeiras linhas, que datavam, davam a origem e descreviam aquilo como uma cópia de um e-mail, vinda de uma outra sede da Deaco Technology.
Eu não poderia traduzi-lo agora. Preciso sair. Mas antes abro o google e pesquiso por ela.
Nos resultados, notícias indicando um crescimento exponencial ao longo dos últimos três anos. Saindo do fim da lista de fabricante de dispositivos e softwares para o terceiro lugar no ranking.
Algo realmente não parecia estar certo sobre essa empresa. A não ser que ela tenha descoberto uma nova fonte de fluxo de informações ou um programa que iria mudar a vida de todos do mundo, ela não chegaria a esse posto tão rapidamente.
Fecho meu notebook, que havia sido altamente alterado ao longo desses anos. Pego minha câmera fotográfica profissional, que me custou uma fortuna, e vou para cumprir compromissos familiares e profissionais. E a chuva começa a cair.