‘’Que bom.’’ Sorrio. ‘’A refeição está pronta.’’
sexta-feira, 30 de março de 2012
Capítulo VI
O táxi vai, serpenteando pelas ruas. Ocasionalmente vira uma esquina a meu sinal. Vai se afastando.
Viro-me para Sofie. A garota está em silêncio. Olha, vidrada, para muito além dos prédios que estão passando rapidamente pela janela.
‘’Você deve estar confusa. Deve querer me perguntar muitas coisas..’’
‘’Você também deve ter perguntas.’’ Ela diz, me interrompendo.
Ela se volta para me encarar. Sua boca ainda está sem cor. Seus olhos levemente sem o brilho habitual daquelas fotos, seguidos pelas marcas de cansaço em suas pálpebras. Sua face, ainda com sinais avermelhados da agressão, com um corte que sangra levemente.
‘’Primeiramente, eu nome é Bruno.’’
‘’E eu sou Sofie..’’ Suas palavras ainda saem vagas, mas seus lábios esboçam um curto sorriso.
Ela pretende dizer mais algumas palavras, mas faço um sinal para que ela permaneça em silêncio.
‘’Apenas descanse um pouco. Você parece fraca. Falta pouco para chegarmos.’’
Olho de soslaio para o motorista, e capto seu olhar pelo retrovisor mais de uma vez.
‘’À esquerda. Pare em frente ao parque.’’ Digo ao taxista. Então me viro para Sofie. ‘’Só vou passar na farmácia antes de irmos para casa. Fica no caminho, nada muito longe.’’
Não demora para que o táxi encoste próximo ao parque. Há um certo movimento, algo rotineiro aqui aos domingos.
Pago ao taxista. Saio do carro e dou a volta. Então seguro a garota que está cambaleando para fora.
Apoio ela e caminho para dentro do parque, nos perdendo entre os que se encontra por lá.
Por cima do ombro, avisto o taxi saindo lentamente, ainda procurando por nós.
Um casal que entra em um táxi, sem nem mesmo saber os nomes um do outro. A garota nitidamente abalada. Pessoas correndo atrás e atirando. É, isso realmente deve atrair um par de olhares curiosos de qualquer taxista. Mas a providencia já estava tomada.
Atravessamos toda a extensão do parque. Sempre o mesmo parque. Onde vi a garota pela primeira vez, onde ela se perdera, onde eu encontrei um gato, e agora, uso ele para despistar o repentino interesse do motorista do táxi, e como um atraso para os capangas, caso eles quisessem me procurar por esse tal taxista.
Seguimos praça à cima, devagar. As imagens passam ao meu lado. As imagens de coisas que vivi aqui. As pessoas andando, apenas imagens meio translúcidas geradas por minha mente.
Enfim, chegamos à parte norte, beirada por árvores e bancos de madeira.
Vejo um taxista e então entramos no carro.
Indico o lugar onde quero ir. Ele vai, quando atinge as ruas que levam para o bairro onde moro, elas se mostram desertas.
O dia já vai a seu fim de entardecer, quando o táxi encosta na portaria do prédio. Pago a corrida e agradeço.
‘’Bem, chegamos.’’ Digo, acordando a garota, que no fim do caminho tinha caído em um estado de torpor.
Saímos e nos direcionamos entrada. O porteiro, Sr. Mario, abre o portão. Seu olhar espantado.
‘’O que aconteceu, garoto? Algum problema?’’
‘’Muitos...’’ Digo, com um pequeno sorriso. ‘’Se alguém vier me procurar, diga tudo que sabe. Esconder fatos pode ser perigoso, Sr. Mario, e não quero te prejudicar.’’
Ele congela. Absorvendo minhas palavras e entendendo que eu estava em algo arriscado. Então ele confirma, um único aceno com a cabeça.
Ele, já em seus sessenta e tantos anos, é um homem, alto e careca, e com estrutura física bem fina.
‘’Obrigado pelo aviso, Bruno.’’
‘’Bem, é o mínimo que posso fazer, já que estou trazendo o perigo na minha cola para cá.’’
Chamo o elevador, que para minha total surpresa, ainda funciona. Ele vem, estalando andares a baixo. A porta abre. Dou boa noite ao porteiro, que ainda me olhava, e então entramos.
A agulha do mostrador de andares, algo bem antigo, que já não é muito comum atualmente, vai caminhando lentamente.
Sofie está em silêncio desde que passamos pelo parque. Talvez ele também tenha trago memórias a ela, memórias não muito acolhedoras.
Seu braço toca o meu. Ela está gelada. O vento começara a uivar lá fora antes de chegarmos à portaria. O outono já vai a sua segunda metade.
Olho para ela. Ela estava fixa em mim.
‘’Eu me esqueci de te agradecer...’’ Ela sussurra.
‘’Não precisa me agradecer por nada.’’
‘’Mas eu te coloquei em risco.’’
‘’Não, a verdade é que eu procurei esse risco.’’
Ela parece querer dizer algo mais, mas balança a cabeça, espantando a ideia.
O elevador apita, a agulha havia chegado ao ponto exato do quarto andar. A porta se abre. Saímos. Ela ainda meio desequilibrada.
Abro a porta do nº 23.
Um miado forte quebra o silêncio, assim que abro a porta. Oren vem correndo. Assim que entramos tranco a porta. Sofie parece estar mais feliz, ela senta no tapete da sala e afaga Oren, que esta agora ronronando.
‘’Esqueci de dizer que estava com seu gato.’’
Ela apenas me olha por uns instantes. Vou para a cozinha e começo a pegar coisas na geladeira.
‘’Afinal, de onde surgiu esse nome? Oren?’’
‘’É galês. Significa laranja.’’ Ela diz e então ri.
Coloco algumas coisas no fogão e então ligo-o. Pego a ração de Oren e vou para a sala, com o pote na mão. Abaixo e coloco perto dele.
Sofie ainda me olha.
‘’Bem... É um apartamento pequeno. Sala, cozinha, ‘’ Digo, indicando cada lugar. ‘’O quarto na primeira porta, e o banheiro no fim do corredor.’’
‘’É aconchegante e bem arrumado.’’ Ela diz, tentando se levantar.
‘’O que deseja?’’ Ajudo-a a se equilibrar sobre os pés.
‘’Acho que eu preciso de um banho.’’ Ela diz e fica olhando para mim, parada.
‘’Fique à vontade.’’ Digo, rindo.
Vou para o quarto. Abro o guarda roupas. Pego uma toalha branca, limpa. Quando m e viro vejo que ela está apoiada na porta.
‘’Vejo que já está andando um pouco melhor. Bem, aqui está uma toalha. Se quiser procurar alguma coisa limpa para vestir, na primeira gaveta tem camisas, na segunda tem calças, nas outras tem quinquilharias.’’ Abro uma e mostro que está cheia de filmes para máquinas fotográficas. ‘’Então, fique à vontade, talvez ache alguma coisa nas outras portas.’’
Volto para a cozinha, deixando-a olhando para o guarda roupa. Oren ainda está comendo. Os alimentos no fogão estão estalando. Desligo o fogo. Abro a geladeira novamente e pego alguns legumes.
O som do chuveiro ligado se faz presente.
Não obstante, o chiado não permanece por tanto tempo.
Um pouco antes que a refeição fique pronta ela surge. Esta usando uma das minhas muitas camisas de manga longa, e sua própria calça.
‘’Ah, acabei de me lembrar. Eu devo ter alguma coisa da minha mãe em umas caixas na despensa.’’
Vou até uma porta um pouco escondida perto da cozinha. Abro e entro em um pequeno cômodo. Algumas caixas estão empilhadas. Na maioria coisas que pertenciam aos meus pais que não tive coragem ou não tive como me desfazer.
Volto com um punhado de roupas.
‘’Se você não ligar de as roupas estarem guardadas há muito tempo..’’ Algumas gotas tentam passar por meus olhos. ‘’Em todos os casos, elas estão limpas.’’
Ela pega as roupas e caminha lentamente para o quarto. Depois volta com uma calça preta que era da minha mãe. Mas continua com a mesma camisa azul.
‘’Eu gostei dessa camisa.’’ Diz quando me vê olhando para ela.
‘’Que bom.’’ Sorrio. ‘’A refeição está pronta.’’
Ela come em silêncio, processando todos os acontecimentos. É isso que imagino vendo seu semblante.
Como apenas um pouco, e vou para o quarto. Entro e encontro as roupas dobradas à beira da cama. Havia um cordão por obre elas. Era um cordão da minha mãe, algo bem antigo, prata. Um pingente em forma de asas abertas.
As lágrimas ainda querem sair, agora mais fortes.
Guardo as roupas em uma das gavetas e começo a preparar a cama.
Quando Sofie aparece na porta, algumas lágrimas estão escorrendo.
‘’O que foi?’’
‘’Nada demais...’’ Passo as costas da mão secando as lágrimas. ‘’Esse colar. Quer ficar com ele?’’
‘’Nã..’’ Ela começa a dizer.
‘’Não, por favor. Estava perdido lá. Os outros, eu me desfiz de todos.’’
‘’Ele é bonito. Mas se você quer mesmo se desfazer dele, eu aceito. Obrigada.’’
Ela pega o cordão, coloca no pescoço e então, o esconde por debaixo da blusa.
‘’Eu que agradeço. Então, quando você quiser dormir... fique à vontade. Amanhã eu respondo todas suas perguntas.’’
Ela aceita a sugestão e então eu vou para a sala.
‘’Boa noite, então.’’ Ela diz quando passo pela porta. ‘’Bruno’’
‘’Boa noite, Sofie. Se precisar de algo, me chame.’’
Quando chego à sala, as lágrimas já passaram. Junto tudo.
Abro meu notebook sobre a mesa e então começo um trabalho de tradução, noite à dentro...
‘’Que bom.’’ Sorrio. ‘’A refeição está pronta.’’
domingo, 18 de março de 2012
Capítulo V
Meus pés aterrissam sobre a madeira.
Me vejo de frente a um sofá, uma mesinha de centro, com papéis revirados em cima, uma televisão em um móvel sem gavetas.
Estavam todas pelo chão, vazias. Papéis espalhados e amontoados por cima do longo tapete que cobre a extensão da sala.
Evidentemente os amigos de Raphael passaram por aqui. E não devem ter encontrado o que procuravam.
Faço meu caminho até a cozinha e encontro o mesmo caos por lá.
Vou para o quarto. Lá o estado é ainda pior. Roupas estavam jogadas por sobre a cama. Provavelmente, fundos falsos foram caçados.
Não há nada útil.
Reviro os montes de roupa. Depois de algum tempo encontro alguns aparelhos a um conto. Identifico um como o carregador. Pelo menos minha busca não ia ser de todo, em vão.
Volto para a sala. Então, algo caído perto da porta de entrada chama minha atenção. Um cartão pequeno, mas de um roxo chamativo.
‘’Daeco, Depósito Empresarial.
Rua Avila, Galpão 12.’’
Não sei qual a procedência daquele cartão, se era da própria Sofie ou não.
Reviro um pouco mais os papéis, nada de novo. Encontro mais uma pilha de cartões idênticos.
Me levanto. Há um tempo considerável que estou aqui.
Caminho para a janela, mas surge a ideia de que talvez haja uma dessas chaves reserva que deixamos inexplicavelmente em um suporte próximo a geladeira. Uma simples olhada e lá está o chaveiro. Pego. Volto com a intenção de fechar a janela, mas no caminho sou atraído a um largo mural com inúmeras fotos. Quase todas aparecem a própria garota. Algumas bem recentes.
Uma figura não muito alta. Cabelo curto levemente avermelhado que reluzia ao por do sol. Aquele dia, quando nossas vidas se cruzaram em um parque ao deitar do sol, eu não tinha visto seu rosto, só ontem quando consegui acessar o aparelho. Seus olhos pareciam azuis, nesta foto, mas eu outra, sem o sol diretamente em seu rosto, seus olhos pareciam verdes.
Olho por mais um tempo algumas fotos, então uma me parece familiar. Ela está no outro canto do quadro, e me chama a atenção pela arquitetura. Vou indo até onde a foto está presa ao mural. Um barulho repentino de passos ao lado de fora, no corredor, me faz congelar no meio de um passo.
Vozes soam através da parede. Sou impelido para a memória do meu encontro no cemitério. Eram as mesmas vozes que eu havia ouvido lá.
O som de uma chave caindo me acorda. Alguém reclama, abaixa e a pega. Então é colocada na porta e o mecanismo interno da fechadura range. Neste exato momento, bato a janela. Fico escondido e olhando pelo canto dos olhos. Eles entram. Os mesmos homens de sempre. Vestidos com o mesmo uniforme.
Então algo inacreditável acontece. Um terceiro homem, que até agora eu só tinha visto, por uma das fotos que tirei ontem, ao volante do carro preto, entra no apartamento, arrastando uma jovem amordaçada. Era a única pessoa que podia ser. Sofie.
A porta é fechada novamente. Como se a pequena garota, claramente esgotada e fraca por ter sido capturada, pudesse fugir sozinha.
‘’Abra a janela, Matheus.’’ Diz o homem que era indubitavelmente o chefe do grupo. O que mais havia conversado com Raphael.
Me vejo de frente a um sofá, uma mesinha de centro, com papéis revirados em cima, uma televisão em um móvel sem gavetas.
Estavam todas pelo chão, vazias. Papéis espalhados e amontoados por cima do longo tapete que cobre a extensão da sala.
Evidentemente os amigos de Raphael passaram por aqui. E não devem ter encontrado o que procuravam.
Faço meu caminho até a cozinha e encontro o mesmo caos por lá.
Vou para o quarto. Lá o estado é ainda pior. Roupas estavam jogadas por sobre a cama. Provavelmente, fundos falsos foram caçados.
Não há nada útil.
Reviro os montes de roupa. Depois de algum tempo encontro alguns aparelhos a um conto. Identifico um como o carregador. Pelo menos minha busca não ia ser de todo, em vão.
Volto para a sala. Então, algo caído perto da porta de entrada chama minha atenção. Um cartão pequeno, mas de um roxo chamativo.
‘’Daeco, Depósito Empresarial.
Rua Avila, Galpão 12.’’
Não sei qual a procedência daquele cartão, se era da própria Sofie ou não.
Reviro um pouco mais os papéis, nada de novo. Encontro mais uma pilha de cartões idênticos.
Me levanto. Há um tempo considerável que estou aqui.
Caminho para a janela, mas surge a ideia de que talvez haja uma dessas chaves reserva que deixamos inexplicavelmente em um suporte próximo a geladeira. Uma simples olhada e lá está o chaveiro. Pego. Volto com a intenção de fechar a janela, mas no caminho sou atraído a um largo mural com inúmeras fotos. Quase todas aparecem a própria garota. Algumas bem recentes.
Uma figura não muito alta. Cabelo curto levemente avermelhado que reluzia ao por do sol. Aquele dia, quando nossas vidas se cruzaram em um parque ao deitar do sol, eu não tinha visto seu rosto, só ontem quando consegui acessar o aparelho. Seus olhos pareciam azuis, nesta foto, mas eu outra, sem o sol diretamente em seu rosto, seus olhos pareciam verdes.
Olho por mais um tempo algumas fotos, então uma me parece familiar. Ela está no outro canto do quadro, e me chama a atenção pela arquitetura. Vou indo até onde a foto está presa ao mural. Um barulho repentino de passos ao lado de fora, no corredor, me faz congelar no meio de um passo.
Vozes soam através da parede. Sou impelido para a memória do meu encontro no cemitério. Eram as mesmas vozes que eu havia ouvido lá.
O som de uma chave caindo me acorda. Alguém reclama, abaixa e a pega. Então é colocada na porta e o mecanismo interno da fechadura range. Neste exato momento, bato a janela. Fico escondido e olhando pelo canto dos olhos. Eles entram. Os mesmos homens de sempre. Vestidos com o mesmo uniforme.
Então algo inacreditável acontece. Um terceiro homem, que até agora eu só tinha visto, por uma das fotos que tirei ontem, ao volante do carro preto, entra no apartamento, arrastando uma jovem amordaçada. Era a única pessoa que podia ser. Sofie.
A porta é fechada novamente. Como se a pequena garota, claramente esgotada e fraca por ter sido capturada, pudesse fugir sozinha.
‘’Abra a janela, Matheus.’’ Diz o homem que era indubitavelmente o chefe do grupo. O que mais havia conversado com Raphael.
O motorista permanece apoiando Sofie, enquanto o outro caminha em minha direção.
Me jogo para a escada do lado e subo apressadamente para o nível superior, até um ponto cego à vista da janela.
O homem, Matheus, abre a janela. Vejo sua cabeça procurando a fonte do barulho repentino que provoquei subindo a escada. Ele não acha nada, então volta a cabeça para dentro.
Com todo cuidado possível, tento descer sem fazer barulho.
Chego ao beiral da janela novamente. Eles haviam entrado para o quarto.
‘’Vamos, Sofie. Diga onde está! Não queremos te fazer mal, mas você não está cooperando! Entregue logo o aparelho e a cópia do email.’’
‘’Já disse que não está comigo, Leonardo. Estava tudo junto. A papelada que vocês já pegaram. E o aparelho estava na minha mão quando vocês me pegaram...’’ Sua voz saia fraca. Mesmo assim se distinguia a leveza de suas palavras e o um doce tom.
Xingos ecoam pelo apartamento. Leonardo ou não acreditava nela, ou sentia a culpa por ter perdido provas tão importantes.
Então um estalar e um grito se seguem. E logo após um choro de dor.
‘’Não vai adiantar você bater nela, Leonardo. A culpa pelo visto é sua mesmo.’’
‘’Cala a boca, Guilherme!’’
Os passos se voltam para a sala. Guilherme é o primeiro a aparecer, trazendo Sofie com um corte no rosto. Eles vão até a cozinha e lá ele a deixa, com um pano cuidando do ferimento.
Ele volta para a sala, onde Leonardo e Matheus estão entrando. Leonardo sussurra algo para os outros e eles voltam para o quarto.
Sofie os observa por alguns segundos e então vai tenta chegar mais perto da geladeira. Sua cabeça tomba quando ela percebe que o que ela está procurando não está lá.
Pulo para dentro, sem fazer muito barulho. Ela me olha assustada. Nunca tinha me visto na vida, e agora eu estava de frente para ela.
Faço um gesto sutil para que fique em silêncio, então mostro a chave que está na minha mão. Ela tenta andar, mas quase cai.
Vou até ela, e a seguro. Seus tornozelos estão roxos. Sua boca está sem sangue, e sua face está sem cor.
Caminhamos até a porta. Então entrego a chave a ela. Deixo-a sozinha tentando abrir a porta. Vou lentamente e nas pontas do pé. Eles estão entretidos lá dentro, de costas para a porta e revirando novamente as coisas espalhados no chão. Mais especificamente onde estava o carregador. Devem ter notado a falta dele.
Pulo para dentro do quarto. Eles se surpreendem, e quando percebem minha presença, já estou fechando a porta e trancando. Para garantir, a travo por fora com a primeira coisa que vejo na frente.
Eles esmurram a porta, mas nada acontece.
‘’É o desgraçado do fotógrafo!’’ Berra Leonardo.
Volto e encontro à porta aberta. Sofie está apoiada na parede. Ela se apoia em mim. Pego a chave e saímos apressados.
Com muito custo chegamos à portaria. Um tiro é ouvido por todo o prédio. Vozes exaltadas se aproximam loucamente pelas escadas.
O porteiro tenta me parar, mas reconhece a garota e então abre o portão.
Chegamos à rua e então entro num taxi que estava parado logo na entrada.
Os homens se aproximam, com armas em punho e atiram contra o táxi que já estava em movimento, errando o alvo por pouco.
Vejo-os voltarem para entrar no caro. Mando o motorista virar no primeiro lugar que desse. Assim nos despistamos.
E sobrevivo pela segunda vez à esse encontro...
Me jogo para a escada do lado e subo apressadamente para o nível superior, até um ponto cego à vista da janela.
O homem, Matheus, abre a janela. Vejo sua cabeça procurando a fonte do barulho repentino que provoquei subindo a escada. Ele não acha nada, então volta a cabeça para dentro.
Com todo cuidado possível, tento descer sem fazer barulho.
Chego ao beiral da janela novamente. Eles haviam entrado para o quarto.
‘’Vamos, Sofie. Diga onde está! Não queremos te fazer mal, mas você não está cooperando! Entregue logo o aparelho e a cópia do email.’’
‘’Já disse que não está comigo, Leonardo. Estava tudo junto. A papelada que vocês já pegaram. E o aparelho estava na minha mão quando vocês me pegaram...’’ Sua voz saia fraca. Mesmo assim se distinguia a leveza de suas palavras e o um doce tom.
Xingos ecoam pelo apartamento. Leonardo ou não acreditava nela, ou sentia a culpa por ter perdido provas tão importantes.
Então um estalar e um grito se seguem. E logo após um choro de dor.
‘’Não vai adiantar você bater nela, Leonardo. A culpa pelo visto é sua mesmo.’’
‘’Cala a boca, Guilherme!’’
Os passos se voltam para a sala. Guilherme é o primeiro a aparecer, trazendo Sofie com um corte no rosto. Eles vão até a cozinha e lá ele a deixa, com um pano cuidando do ferimento.
Ele volta para a sala, onde Leonardo e Matheus estão entrando. Leonardo sussurra algo para os outros e eles voltam para o quarto.
Sofie os observa por alguns segundos e então vai tenta chegar mais perto da geladeira. Sua cabeça tomba quando ela percebe que o que ela está procurando não está lá.
Pulo para dentro, sem fazer muito barulho. Ela me olha assustada. Nunca tinha me visto na vida, e agora eu estava de frente para ela.
Faço um gesto sutil para que fique em silêncio, então mostro a chave que está na minha mão. Ela tenta andar, mas quase cai.
Vou até ela, e a seguro. Seus tornozelos estão roxos. Sua boca está sem sangue, e sua face está sem cor.
Caminhamos até a porta. Então entrego a chave a ela. Deixo-a sozinha tentando abrir a porta. Vou lentamente e nas pontas do pé. Eles estão entretidos lá dentro, de costas para a porta e revirando novamente as coisas espalhados no chão. Mais especificamente onde estava o carregador. Devem ter notado a falta dele.
Pulo para dentro do quarto. Eles se surpreendem, e quando percebem minha presença, já estou fechando a porta e trancando. Para garantir, a travo por fora com a primeira coisa que vejo na frente.
Eles esmurram a porta, mas nada acontece.
‘’É o desgraçado do fotógrafo!’’ Berra Leonardo.
Volto e encontro à porta aberta. Sofie está apoiada na parede. Ela se apoia em mim. Pego a chave e saímos apressados.
Com muito custo chegamos à portaria. Um tiro é ouvido por todo o prédio. Vozes exaltadas se aproximam loucamente pelas escadas.
O porteiro tenta me parar, mas reconhece a garota e então abre o portão.
Chegamos à rua e então entro num taxi que estava parado logo na entrada.
Os homens se aproximam, com armas em punho e atiram contra o táxi que já estava em movimento, errando o alvo por pouco.
Vejo-os voltarem para entrar no caro. Mando o motorista virar no primeiro lugar que desse. Assim nos despistamos.
E sobrevivo pela segunda vez à esse encontro...
sexta-feira, 9 de março de 2012
Capítulo IV
A chuva havia passado. O laranja do por do sol me acompanha e me fascina, durante todo o percurso para casa.
Oren me recebe com um ronronar. A comida do pote havia acabado. Preencho-o e lhe dou um pouco de leite.
Vou para o quarto. Pego o aparelho e testo as baterias. A primeira não gera efeito algum. Coloco a segunda e essa parece fazer o aparelho ligar. Mas mesmo assim, nada aparece na tela.
Depois de um bom tempo, consigo trocar o visor pelo que estava inteiro em um dos outros aparelhos.
Finalmente, com a tela e a bateria trocadas, o aparelho liga.
Ele carrega, e então, surge na tela quatro quadrados flutuantes ao topo e o espaço restante da tela é tomado por um teclado virtual.
‘’Senha...’’
Isso ainda não tinha passado pela minha cabeça.
‘’É claro que há uma senha...’’
Há o quê? 456 mil 976 senhas possíveis, sem conhecer a pessoa? Minhas chances são minúsculas.
Desligo-o, para a bateria não ser consumida e resolvo me focar em traduzir o documento.
Nesse momento, minha barriga acusa a falta de alimentação.
Vou até a cozinha para preparar um sanduíche com um copo de suco de laranja.
Oren, o gato, vem aos meus pés e começa a se esfregar em minhas pernas e a ronronar.
Quando olho para ele, ele está começando a rolar pelo chão, sua coleira brilha com a luz e então sou atingido pelas letras de seu nome, como em um caleidoscópio.
As quatro letras me abalam. Largo o prato com o protótipo de um de um sanduíche e vou correndo para o aparelho. De alguma forma eu fantasio que o nome de um gato abandonado em um parque vai me salvar.
Paro no meio do caminho.
‘’Como eu posso ser tão idiota ao ponto de cogitar algo assim?’’
Volto e monto minha refeição. Só então volto ao quarto. O aparelho, em cima da mesinha, parece irradiar aos meus olhos. A ansiedade e a curiosidade me vencem.
Pego o aparelho. Ligo. Os quatro espaços retornam. Digito sequencialmente: ‘’O R E N’’.
O aparelho se apaga
Me culpo pela falta de inteligência da minha parte. Jogo o aparelho sobre a cama e quando toco no prato, uma voz quase me faz derrubá-lo ao chão.
‘’Usuária: Sofie. Bem vinda!’’ Uma voz doce e leve.
Meu coração acelera ainda mais.
Corro e pego o aparelho. Há uma imagem ao fundo. É a garota misteriosa, Sofie?, e junto a ela, um pequeno gato laranja. Sua coleira indica ser o mesmo gato que acabara de entrar em meu quarto, o mesmo que é a chave para o aparelho.
Vou à fundo em todas as ramificações das pastas existentes. Leio cada pequeno texto, cada documento, vejo as imagens e tudo mais.
Por fim, acabo. Olho para o relógio. Quase três horas desde que comecei a vasculhar o aparelho.
Havia comido o lanche. Agora minha cabeça precisava processar todos os fatos. E descansar. Há três dias, desde que encontrei Oren, minha vida teve muitas mudanças.
Levo o prato e o copo para a pia. Volto, apago as luzes e deito.
As informações começam a fluir.
É estranho o fato de conter tantas informações sobre ela no aparelho. Por mais que ele fosse pessoas, o aparelho era pra uso empresarial.
Seu nome é Sofie. Morava em um apartamento, o número 17, terceiro andar, em um bairro de classe média. Isso antes de ser capturada e ser levada sabe-se lá para onde.
No meio desses pensamentos o sono vem e acabo dormindo.
--------------- // ---------------
Acordo às 8h, com lambidas insistentes em minha mão.
Minha cabeça está doendo.
Levanto, coloco ração para Oren e vou para debaixo do chuveiro.
A água me ajuda a despertar.
Saio depois de meia hora. Pela janela vejo um dia muito bonito. Limpo, sem sinais da chuva de ontem. Um ótimo domingo para aproveitar.
Olho em cima da mesa e vejo o aparelho. O tomo nas mãos e descubro que eu o havia deixado ligado. A bateria acusa estar pela metade.
Então me lembro de que tinha descoberto onde ela morava. Provavelmente, lá eu encontrarei um meio para carrega-lo. Mais um motivo que circula pela minha mente para eu poder visitar aquele lugar. Talvez eu encontre mais pistas sobre ela e sobre a organização. O Aparelho só conta pequenas coisas.
Tomo uma boa dose de cafeína, pego o essencial e vou. Dessa vez levo junto o notebook, assim, mesmo que, de alguma forma, eles descobrirem onde eu moro, não encontrarão nada que me compromete.
O lugar onde a garota, Sofie, mora é do lado oposto da cidade. Então, entro em um ônibus, quase completamente vazio.
Aproveito e ligo o notebook.
Acesso um aplicativo da área de trabalho. Ele me abre uma janela de login. Digito as informações e sou mandado a uma pasta.
Nessa pasta estão as imagens do meu encontro acidental com Raphael e seus capangas.
É assim que funciona meu pequeno aparelho acoplado à câmera fotográfica. Se eu o ativar, as fotos que eu tirar são processadas por ele, então ele às envia via internet para esse aplicativo, que eu mesmo criei, em meu computador e então as salva. Após isso, o próprio aparelho deleta as originais da câmera, e, assim, se eu for pego, as fotos, e eu, estão à salvo.
As fotos ficaram boas. Dá para reconhecer cada um dos três. A placa do caro de Raphael é uma surpresa interessante. A placa do outro carro também foi fotografada. O logo é realmente o mesmo do documento.
Não estou longe da rua onde Sofie mora. Guardo meu notebook e desço do ônibus e me direciono até o lugar.
Paro bem em frente ao apartamento, do outro lado da rua. O movimento é fraco por ali. Um porteiro verifica que se aproxima do prédio. Não há nenhuma chance de passar por ele sem que ele me identifique e posteriormente, me descreva se os capangas de Raphael vierem.
Dou a volta no quarteirão, percebo escadas de saída de emergência brotando das janelas dos fundos, elas desembocam em um lugar aberto que leva para o estacionamento. Este lugar também está vigiado.
Um carro alto e grande se aproxima do portão, o lado esquerdo, do motorista, voltado para a guarita de entrada. O lado oposto, fora do campo de visão, tanto do motorista quanto do vigia, que agora está entretido conversando com o morador.
Me abaixo e caminho rápido de encontro a lateral do carro. Me seguro a maçaneta e coloco os pés em uma aba da porta. O carro volta a andar e eu quase caio.
Por sorte o motorista vai até o estacionamento subterrâneo. Antes mesmo de o carro parar, pulo e me escondo atrás de uma das vigas de sustentação.
Vejo a escadaria, logo ao lado do elevador. Espero um pouco. O motorista estaciona, e então se direciona até o elevador. Assim que a porta se fecha, saio correndo para as escadas.
Subo até o terceiro andar, abro a porta que sai para o corredor e espio, não há ninguém por ali.
Então encontro o apartamento de número 17. Era um no fim do corredor. Claro, a porta está trancada.
Mas, como pude ver lá de baixo, da janela do andar é possível se chegar às escadas de emergência.
Saio por ela e com todo cuidado me direciono para o ar livre. Pulo para a grade da escada do apartamento 17 e me seguro sem apoio. Com esforço subo e olho para baixo. O vigia não me vira. Vou até a janela e para minha surpresa, ela está destrancada. Então a levanto e pulo para dentro, sem saber o que pode me esperar, nem como iria sair.
Capítulo III
Vou diretamente para casa.
A tecnologia me permite isso. Só enviar os arquivos, anexados a um e-mail. É o processo padrão de onde eu trabalho. Mesmo eu preferindo, em muito, revelá-las à moda antiga.
Chego, vou diretamente ao meu computador. Adapto o cartão de memória ao pequeno conector e voilà. As fotos são carregadas e, depois de uma olhada na qualidade, são enviadas.
Agora eu estou livre do trabalho. E o fim de semana será preenchido por análises e traduções.
São 15hrs e 20 minutos. Pego o celular e ligo para o meu 'amigo'.
Meu número está gravado por ele, com toda a certeza.
''Quem é vivo sempre faz ligações não é, Bruno? O que você precisa dessa vez?'' - Diz ele em tom de deboche.
''Como se só eu que pedisse favores! Acho que foi na semana passada que te ajudei com aquele código fonte, não foi, Felipe?'' - Falo, também, rindo.
''Até parece que você fez tanta coisa assim.''
''Bem, aos negócios.'' Digo. ''Preciso de uma bateria de lítio. Sete centímetro de comprimento, quatro de largura e um de altura. O que você pode fazer por mim?''
''Acho que tenho umas duas dessas..''
''Ótimo!'' O interrompi. ''Conversamos mais quando eu chegar aí.''
Desliguei, peguei minha jaqueta, já úmida, e lancei-me na tempestade, que aumentara bastante desde que saí do cemitério.
--------------- // ---------------
Vou até o pequeno ''comércio'' dele. Nada muito longe de onde eu moro.
Meia hora depois de sair, chego de frente a um prédio com dois andares, No de cima, o lugar onde ele mora. No andar de baixo, apenas uma porta na parede cinza escura.
Entro. Lá dentro, o ambiente é claro, devido as lâmpadas fluorescentes, espalhadas por todos os lados ao teto. Algumas vitrines com aparelhos preenchem a parte da frente do estabelecimento. Ao centro, uma grande bancada divide o lugar, esta bancada vai de um lado ao outro, até encostar na parede, então faz uma curva e vai até os fundos, faz outra curva até encostar na parede lateral, onde há uma escada para subir ao andar de cima. Essa bancada fica em forma de U com a parede lateral, e, atrás dela, todo o tipo de coisas desmontadas.
Felipe surge por esta bancada, ao som dos meus passos pela entrada. Um rapaz de 23 anos. Alto, cabelo desgrenhado e loiro. Óculos de lentes quadradas, ao estilo Nerd.
Felipe foi a primeira pessoa, e a única, com quem fiz amizade ao longo de nossa estadia no orfanato.
Ele foi parar lá logo as três anos. Sua mãe morrera no parto e seu pai, bem, esse nunca deu as caras. Ficou aos cuidados da avó, até ela não poder mais cuidar dele.
Nos anos que ficamos por lá, aprendemos juntos muito sobre a nova tecnologia. Dávamos algumas escapadas do orfanato e íamos aonde fosse possível adquirir mais conhecimento.
Então conseguimos um curso técnico e ele saiu um ano antes que eu.
Ainda somos 'sócios' em alguns serviços. De vez em quando surgem algumas linhas de códigos para programar.
Me aproximo e ele me joga as baterias.
''Por que desligou o telefone daquele jeito?''
''O telefone não é mais tão seguro quanto era antes da tecnologia avançar tanto, não acha?''
''Entendo. Então, essas baterias aí servem?''
Tiro a bateria que estava dentro do aparelho e comparo com as outras duas. Eram perfeitamente iguais.
''Servem sim. São idênticas. Onde você as conseguiu?''
''Eu dois aparelhos completamente destruídos que veio até mim a um mês. Um catador achou eles e me trouxe.''
''Ainda tá com os aparelhos?''
''Sim, estão aqui.''
Ele aponta para a bancada. Dou a volta nela e me aproximo da carcaça de dois aparelhos. Os dois estavam em um estado deplorável. A estrutura até estava boa, mas a parte eletrônica deles havia sido explodida. Provavelmente eu estava certo sobre o botão de Autodestruição.
As baterias estavam um pouco avariadas. Mas não haviam estourado igual a que eu tinha.
''Alguma possibilidade delas estarem funcionando?'' Digo, mostrando as baterias.
''Grandes chances de sim. Elas são um pouco diferentes das outras. Tem uma capacidade de guardar energia um pouco maior. Se a parte interna não foi muito abalada, funcionarão com certeza.''
Olho de novo para os aparelhos. Eu não podia deixá-los. A mera existência deles naquele lugar possibilitaria o pensamento de que alguma parte dele foi desmantelada ou de que Felipe tenha tentado aprender alguma coisa com eles. Além do mais, a tela de um deles estava inteira, e me lembrei de que o que eu tinha, guardado muito bem em minha casa, estava com uma rachadura.
''Vou levar eles se não se importa. Quanto fica tudo?''
''Isso tudo tá aqui sem utilidade nenhuma, só ocupando espaço e eu não consigo me livrar. Se você levar é um favor pra mim. Mas eu quero saber, no que você está metido?''
''Eu ainda não sei direito. Só sei que alguma coisa está errada, que eu presenciei algo e que eu preciso agir quanto a isso, pra poder me sentir melhor.''
Ele não entendeu esse último comentário. O fato daquele sequestro me lembrou dos meus pais. Da morte deles, e isso por si só já era um fator a mais para tentar intervir. Depois aquele encontro no cemitério. Eles iam fazer alguma coisa contra aquela garota.
''Se você for questionado sobre estes aparelhos, não diga que os tinha. E se for inevitável, nunca os associe a mim, por favor.''
''Tudo bem.''
Depois disso ele me pede para olhar um dos códigos de um programa e acabá-lo. Estávamos de acordo.
Saio de lá. Caminho algum tempo e me deparo com um pequeno sebo. Era uma das coisas que me faltava. Precisava de um dicionário. E de que ele viesse de algum lugar difícil de ser rastreado. Eles poderiam esta monitorando quem traduz textos de uma língua tão estranha.
Entro, o lugar está quase fechando. Uma loja bem pequena de fachada. As paredes muito próximas uma da outra, com espaço para três pessoas andarem no longo corredor, entre os livros que ficavam pelas paredes.
Vou até o final, onde há um pequeno balcão e uma atendente. Pergunto se ela tem dicionários, e então mostro três palavras significantes que eu havia gravado daquele papel.
Ela me pede para esperar. Vai até uma prateleira e volta com dois exemplares.
''Esse é de Galês, e esse outro é de Dinamarquês. Mas acredito que seja Galês mesmo.''
Ela me entrega o exemplar. Um pequeno livro, muito grosso. Amarelado pelo tempo. Dou uma folheada e acredito que seja este mesmo.
Pago e saiu dali. O dia estava em seu tom laranja de fim de tarde. E hoje, como quase nunca havia feito, eu não estaria vendo essa cena, sentado naquele banco do parque.
Desde que eu me estabeleci no orfanato, eu vou aquele parque. Um lugar calmo e bonito, localizado nas proximidades do prédio onde era o orfanato. Hoje, apenas mais um prédio corporativo...
segunda-feira, 5 de março de 2012
Capítulo II
A chuva é fraca e não atrapalha meu caminhar, sem proteção contra suas gélidas gotas. Meus equipamentos não correm perigo de sofrer avarias. A mochila é impermeável.
Vou andando. Um longo caminho desda a parte esquecida da cidade até a parte antiga.
O bairro onde moro foi local de uma grande banalidade a décadas atrás. Uma morte daquelas que chocam os moradores, faz com que eles resolvam se mudar e faz com que a área perca valor comercial.
Já o bairro antigo, com sua arquitetura clássica, tem uma grande extensão. Um bosque e o principal cemitério. O fato de estar me encaminhando para lá não é para tirar fotos de túmulos, muito menos de cadáveres. O alvo é a Capela, localizada ao topo do cemitério, dotada de grande beleza e, o mais importante, de história. Essa história seria estendida a um ou outro mausoléu de uma família importante.
Um cemitério. Onde a história para, mas nunca morre.
O cemitério está vazio, como era de se imaginar. A chuva para, mas as nuvens ainda estão pesadas.
Pego a câmera e começo minha preparação, já dentro da capela.
O processo de fotografia leva cerca de duas horas. Nesse momento a chuva já está de volta. Falta apenas imagens de alguns ''Templos'' familiares. Terei de esperar a chuva passar, mas a certeza de que hoje choveria foi a verdadeira razão pela escolha de vir hoje fazer essas fotos. O tom acinzentado e a perspectiva de umidade fazem com que as fotografias adquiram uma qualidade natural.
Chego, finalmente, aos túmulos dos meus pais. O líquido que escorre pela minha face adquire um sabor amargo, salgado.
Falo algumas palavras espontâneas. Enxugo as lágrimas e vou. Vou porque a dor daquele momento sempre me aflige mais que o esperado. As lágrimas sempre brotam e depois a garganta se fecha, dolorida. Os olhos começam a ficar turvos e então eles também tendem a se fechar. As lágrimas saem incontroladas, deixam os olhos atordoados e vão para o chão, vão de encontro ao que as provocam. E então, a única coisa que você pode fazer no momento é fugir. Sair daquele lugar frio. Da solidão presente em cada canto. Da amargura que fica presente no olhar, quando se perde alguém. Da escuridão que tenta te prender em seu interior. Você foge, e foge de você mesmo.
Chego aos mausoléus da lista do que eu tinha que tirar fotos. Eles estão próximos a entrada do cemitério.
Fotografo os principais adornos arquitetônicos. Então percebo. Um carro preto parado à entrada.
O motorista sai e abre a porta de trás. Abre um guarda chuva e só então um homem de certa idade e de roupas claramente caras, – terno preto e sapatos de bico fino, talvez até italianos – levanta de dentro do carro.
Essa cena nada tinha de estranha.
A meu ver, um homem rico vindo ver o túmulo de um parente morto. Então o cenário muda.
Novamente um carro preto em alta velocidade quebra toda a estática. Minha mente, que acaba funcionando igual a uma câmera, se adapta aos pequenos detalhes da imagem em movimento. Na mesma hora que o carro entra em foco, um lampejo me mostra o rapto da garota misteriosa.
Para minha surpresa, o carro de agora era, possivelmente, o mesmo da outra tarde.
Tenho a certeza quando os ocupantes dele descem. Trajando as mesmas roupas pretas com logotipo da Deaco Technology. Eles caminham em direção ao outro homem, que agora os espera próximo ao portão de entrada.
Agora eu coloco em prática um item de muito tempo de pesquisas. Um pequeno aparelho que desenvolvi. O projeto principal eu fiz durante o último ano da minha estadia no orfanato. Foi logo após eu começar a fotografar. Essa ideia veio e nunca achei que fosse usá-la, mas ela estava sendo aplicada.
O aparelho é acoplado a máquina. Algumas modificações tiveram que ser feitas nela também. E então, eu começo a fotografar o encontro nada casual que estava ocorrendo.
Eles não me viram e suas vozes estavam exaltadas.
''O que vocês me trazem?'' - Exige o homem de terno.
''As coisas não estão tão boas assim não, Raphael.'' - Diz um dos empregados.
''Ela não está colaborando. E há arquivos faltando, não estão todos com ela.'' - Tenta explicar o outro.
''Não estou interessado em suas desculpas. Vocês estão falhando comigo...'' - O comentário do homem, chamado Raphael, morre.
''Mas, senhor. O aparelho não se encontra com ela! Nós já reviramos o apartamento da Sofie e ele também não está lá.''
''E ela não fala onde está. Ela diz que estava com ela na hora que a pegamos. O que você quer que nós façamos agora?''
''Eu quero que vocês consigam algo produtivo pelo menos uma vez na vida!'' - Ele diz e faz uma pausa. Um pacote pardo é passado para ele. Tiro umas fotos. Desativo meu aparelho e fotografo mais algumas figuras do mausoléu.
''Pelo menos vocês não são incompetentes ao extremo...'' - Raphael então nota minha presença. Mas já era tarde. Eu estava saindo naturalmente, tirando algumas fotos da faixada do cemitério.
Ele permanece parado, me medindo de cima à baixo, quando eu me viro e ajo como se os visse pela primeira vez.
''Boa tarde, senhores.'' - Os cumprimento.
''Quem é você?!'' - Sou impelido bruscamente ao chão após essas palavras, vindas de Raphael.
''Apenas um fotógrafo em serviço. Meu nome é Bruno!'' - Isso é comprovado quando eles recolhem meus documentos e verificam minha origem.
''E de que você estava recolhendo imagens, Bruno?'' - Isso vem como uma acusação. Não respondo. O fato é: tente dar um motivo para não duvidarem de você e vão duvidar ainda mais. Dê um motivo e eles acabam duvidando de forma menos violenta.
O rapaz que me derrubou e me pressionava contra o chão passa meu equipamento ao outro. Este o liga e verifica as fotos. Nada além de pilastras e vitrais. Do início ao fim.
Ele me levanta. Pedindo desculpas. Me devolve minha carteira enquanto Raphael exige ver as fotografias. Ele se convence que sou inocente neste fato. Mas mesmo assim faz um pequeno interrogatório.
''O que você ouviu, garoto?''
''Só vozes abafadas quando eu estava vindo embora. Quando eu cheguei aqui na saída, já estava tudo quieto.'' - Digo em tom de observador. ''Vocês são estranhos. Até parecem culpados de alguma coisa. Me desculpem mas eu tenho hora marcada com meu editor. Se me permitirem, eu preciso ir.''
Ele me considera. Parece imaginar que se não me deixar ir o mais rápido possível, eu posso começar a fazer suposições. Me devolve o equipamento, e solta um pedido de desculpas entre os dentes.
Me despeço e começo a caminhar. Minha mente fervilha. Fatores novos, sendo que os 'antigos' eu ainda não havia analisado ao máximo.
Percebo que realmente parece que o destino quer que eu interva sobre os acontecimentos.
A chuva aumenta e sou obrigado a correr, em um misto de pressa e ansiedade.
domingo, 4 de março de 2012
Capítulo I
Fiquei estático por algum tempo. Foi tudo tão rápido que eu nem consegui processar os acontecimentos.
O vento voltou e a folha abandonada voou em direção ao lago. Me apressei e a segurei a poucos metros da água. Nela estava o mesmo logotipo estampado na camisa dos sequestradores. O melhor era guardar e analisar mais tarde. Alguém poderia me ver. Eles poderiam dar falta do documento e do aparelho e voltar. Nesse momento a imagem do aparelho me volta a mente como um raio. Olho para o local. Ele ainda está lá. Intocado. Antes que mais alguém o veja, me direciono até ele. Ele já está com uma camada de areia, em sua tela, levada pelo vento. Me abaixo e o retiro do chão.
É um aparelho um pouco pesado. Com o impulso à porta ele deve ter sido danificado. Está desligado. Coloco-o no bolso interno da blusa, junto a folha dobrada ao meio.
Levanto e olho tudo ao redor. Não há ninguém no local. Tento reconstituir a cena. A garota andando. O carro e os homens. A visão acaba e então em alguns minutos estou cruzando toda a extensão do parque, no sentido oposto ao que a garota caminhava. O parque já estava tomado pelas sombras.
Caminho para casa. Em todo o trajeto, o peso do bolso interno aumenta minha instabilidade mental. O que eu pretendo fazer com aquilo? Eu nunca havia visto aquela garota. Eu não precisava fazer nada. Mas eu deveria.
Chego no portão do prédio. Sr. Mario, o porteiro, me cumprimenta. Finjo o estado normal e subo. As escadas, vazias como sempre. O apartamento, número 23, no quarto andar, está tomado pelo silêncio. Acendo a luz, fecho a porta e me deparo com um pequeno gato caramelo de olhos cinza. Ele me encara de cima da bancada que divide a sala da pequena cozinha. Vou até a geladeira, pego um pouco de leite e coloco ao lado dele. Enquanto ele bebe, analiso sua coleira pela milésima vez, desde que o encontrei no fim da tarde passada. Apenas uma correia de couro com um pingente prateado em que havia um nome gravado. Nada dos convencionais dados para contato com o dono. Como se a pessoa tivesse muito apreço pelo animal, colocara o nome e tivera que abandonar o lindo filhote. Seu nome, apenas quatro letras floreadas no metal. Oren.
Volto a geladeira. Pego um copo de suco e vou para o quarto.
Uma cama, uma mesa, com um velho notebook, próxima a janela da qual eu vejo a rua de frente ao prédio. Não que desse para distinguir muita coisa à essa altura. Na outra parede, um pequeno guarda-roupa divide o espaço com uma estante de livros.
Vou até a mesa, esvazio os bolsos. Tiro o casaco e o guardo.
Sento e fico olhando o aparelho. Nada que eu pudesse reconhecer. Algo totalmente desconhecido para mim. Maior que um celular normal. Metade do tamanho de um notebook.
Olho cada detalhe e não vejo nem um sinal de parafusos.
Passo um longo tempo com ele na mão, em frente aos olhos. Imagino tudo o possível para abrí-lo e nada funciona.
O tempo está ameno. A brisa vinda da janela me embala. Quase adormeço na própria cadeira. O suco intocado. Levo o copo a boca e constato que a temperatura dele aumentou e que fiquei muito tempo sem notar nada ao redor.
Olho o relógio. Ele aponta nove e vinte dois da noite.
Levanto e vou para a cozinha. Despejo o suco quente pela pia e reabasteço o copo com o restante que estava na geladeira.
O gato, após beber todo o leite, caçou algum lugar quente para dormir. Com todo aquele acontecimento da tarde, esqueci de comprar uma pouco mais de ração para ele. Coloco o resto que estava no pequeno pacote em uma vasilha e a abaixo, com a promessa de comprar mais no próximo dia.
Oren aparece de qualquer lugar invisível e começa a comer.
Apago as luzes e vou para o quarto. Me jogo na cama e perco a consciência.
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O despertador toca às cinco da manhã.
Sento na cama e vejo o gato à meus pés.
Levanto e vou para o banho e depois tomo um café. Lavo as vasilhas que estavam sobre a pia.
Resolvo sair para comprar a ração. O tempo havia mudado. O brilho laranja do sol de ontem fora substituído pelo cinza tempestuoso. Hoje irá chover. Como tem sido nos últimos 4 anos.
Hoje, dia 16 de maio, completa cinco anos desde que meus pais foram mortos em uma tentativa de assalto. Não foi nada de outro mundo, esse tipo de coisas acontece com frequência por aqui. Eu tinha 16 anos. Meus parentes agora acham que sou frio.
Chorei um dia completo. No outro levantei com o pensamento de meus pais iam querer que eu seguisse em frente. Então eu enxuguei as lágrimas e estudei todos os meus direitos. Dez dias depois, na audiência para minha guarda, – nada além de uma pequena sala, um oficial de justiça, um promotor de cada lado de uma mesa, um ao meu lado e o outro ao lado da família do meu pai – eu levantei e disse:
''Eu quero ser levado para um orfanato.''
''Eu quero ser levado para um orfanato.''
Eles me encararam, atônitos. Então protestaram. Disseram que eu estava me revoltando. Que eu estava abalado pela perda e não poderia estar em plena consciência.
A Oficial de Justiça estava concordando. Olhei para ela e falei, indignado:
''Tudo bem, mas se os bens de meus pais forem perdidos, eu vou entrar com uma ação contra o Estado, e, de acordo com meus direitos, eu tenho certeza que posso ganhar.''
Meu próprio promotor, um homem novo, sem muita experiência mas com um bom faro para o futuro, me encarrou pasmo. Ele não tinha a mínima ideia de onde eu tirara aquilo. Abaixei e peguei um enorme exemplar de uma bolsa. Direitos Processuais Civis. E dentro dele, um bom número de folhas amontoadas à esmo.
A Oficial de Justiça me olhou, como se reconsiderando sua opinião. Ela viu que eu poderia ter fundamentos. Mesmo assim, achou que eu poderia estar somente encenando. Depois que eu abri no artigo referente ao meu caso e recitei um parâmetro para ela, sua opinião mudou definitivamente.
Meus possíveis tutores só puderam gaguejar e então eu me livrei da falsidade deles.
Meus pais não tinham muita coisa para me deixar. Uma casa não muito nova, mas que fora comprada com muito esforço. Consegui com que ela fosse vendida. Não teria força para morar nela. O dinheiro foi aplicado, até que eu pudesse ser responsável por mim mesmo, e então ele estivesse à meu serviço.
Foi com isso que, depois de dois anos sombrios em um orfanato que poderia ser chamado purgatório, comprei um apartamento em um lugar praticamente esquecido.
Sem perceber havia chegado às portas do supermercado 24 horas.
Peguei tudo que precisava e me encaminhei para o caixa rápido.
Voltei para casa. A secretária eletrônica a piscar. Dois novos recados.
Coloco os sacos de papel em cima da bancada e aperto para escutá-los.
''Olá, Bruno. Não esqueça de passar aqui na delegacia para pegar sua recompensa. Ótimas fotos. Continue assim e possivelmente se tornará investigador. Tenha um bom dia.''
''Bruno! Aquelas fotos do cemitério que você prometeu, vão sair quando. Seu prazo está acabando. Os editores estão pressionando. Acho melhor você entregar elas logo.''
– Em pleno sábado, oito horas da manhã, e meu chefe já me estressando...
Eu falei que enviava para ele hoje. E o delegado Guilherme. Sempre em seu bom humor.
Guardo as compras, vou para meu quarto e me concentro no aparelho.
Na luz natural que entra pela janela, mesmo o sol muito encoberto, reparo que as laterais dele se voltam, criando uma espécie de circulo, não muito aparente.
Então pego o aparelho e o pressiono para a lateral. Ele faz um pequeno ruido e a parte de cima, onde havia o mesmo logotipo que me persegue, faz o contorno pelo fundo e volta para ficar fixa lateralmente ao fundo, criando assim um conjunto em formato de 'L' que se mostra ser uma tela e um pequeno teclado. O teclado é diferente de todos os outros já vistos por mim. Possui apenas dez teclas de acesso rápido, nada mais que um pequeno símbolo em cada uma, possivelmente indicando sua função.
A tela, evidentemente sensível ao toque porque o teclado não permitia opções de caracteres, estava meio trincada.
O botão que indica um desenho que representava o 'Ligar', mesmo pressionado, não surtia efeito no aparelho.
Resolvi catalogar todos os botões: 'Ligar/Desligar'; um com uma chave e uma fechadura que seria o 'Fechar'; uma borracha no 'Apagar'; um disco para 'Salvar'; algo como um cartão que pensei ser para conectar um dispositivo; a engrenagem de 'Configurações'; um ícone de uma câmera, para 'Gravar' alguma coisa; E então as surpresas, um isqueiro e uma explosão, que me pareceram, respectivamente ser o de 'Formatar' e 'Auto Destruição'... e por último um que me deixou extremamente feliz, uma chave de fenda, um botão para desmontar, e o melhor de tudo é que ele era de ativação mecânica e não eletrônica. Igual ao sistema para abrir-lo.
Aperto ele e o aparelho se abre, expondo seus conteúdos internos.
Ao abrir, um líquido denso está envolto a bateria. Por muita sorte, a bateria que estava danificada, certamente pelo choque do aparelho ao carro, era uma simples bateria de lítio. Algo que não seria nem um pouco difícil de achar. Talvez o modelo fosse a questão, mas eu tenho alguns contatos de uma loja no subúrbio que certamente me renderia algo.
Removo a bateria e limpo os resquícios de sua existência dentro do aparelho. A guardo em um pequeno plastico e anoto as dados da tela. Talvez eu conseguiria algo para ela também.
Sanadas as dúvidas de o que fazer com o aparelho, eu me direciono até a folha.
Ela havia caído para debaixo da cama durante meu sono. Abro e começo a ler.
A parte superior era tomada pelo logo. O restante era um emaranhado de palavras que não estavam em português, apenas as primeiras linhas, que datavam, davam a origem e descreviam aquilo como uma cópia de um e-mail, vinda de uma outra sede da Deaco Technology.
Eu não poderia traduzi-lo agora. Preciso sair. Mas antes abro o google e pesquiso por ela.
Nos resultados, notícias indicando um crescimento exponencial ao longo dos últimos três anos. Saindo do fim da lista de fabricante de dispositivos e softwares para o terceiro lugar no ranking.
Algo realmente não parecia estar certo sobre essa empresa. A não ser que ela tenha descoberto uma nova fonte de fluxo de informações ou um programa que iria mudar a vida de todos do mundo, ela não chegaria a esse posto tão rapidamente.
Fecho meu notebook, que havia sido altamente alterado ao longo desses anos. Pego minha câmera fotográfica profissional, que me custou uma fortuna, e vou para cumprir compromissos familiares e profissionais. E a chuva começa a cair.
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