‘’Que bom.’’ Sorrio. ‘’A refeição está pronta.’’
sexta-feira, 30 de março de 2012
Capítulo VI
O táxi vai, serpenteando pelas ruas. Ocasionalmente vira uma esquina a meu sinal. Vai se afastando.
Viro-me para Sofie. A garota está em silêncio. Olha, vidrada, para muito além dos prédios que estão passando rapidamente pela janela.
‘’Você deve estar confusa. Deve querer me perguntar muitas coisas..’’
‘’Você também deve ter perguntas.’’ Ela diz, me interrompendo.
Ela se volta para me encarar. Sua boca ainda está sem cor. Seus olhos levemente sem o brilho habitual daquelas fotos, seguidos pelas marcas de cansaço em suas pálpebras. Sua face, ainda com sinais avermelhados da agressão, com um corte que sangra levemente.
‘’Primeiramente, eu nome é Bruno.’’
‘’E eu sou Sofie..’’ Suas palavras ainda saem vagas, mas seus lábios esboçam um curto sorriso.
Ela pretende dizer mais algumas palavras, mas faço um sinal para que ela permaneça em silêncio.
‘’Apenas descanse um pouco. Você parece fraca. Falta pouco para chegarmos.’’
Olho de soslaio para o motorista, e capto seu olhar pelo retrovisor mais de uma vez.
‘’À esquerda. Pare em frente ao parque.’’ Digo ao taxista. Então me viro para Sofie. ‘’Só vou passar na farmácia antes de irmos para casa. Fica no caminho, nada muito longe.’’
Não demora para que o táxi encoste próximo ao parque. Há um certo movimento, algo rotineiro aqui aos domingos.
Pago ao taxista. Saio do carro e dou a volta. Então seguro a garota que está cambaleando para fora.
Apoio ela e caminho para dentro do parque, nos perdendo entre os que se encontra por lá.
Por cima do ombro, avisto o taxi saindo lentamente, ainda procurando por nós.
Um casal que entra em um táxi, sem nem mesmo saber os nomes um do outro. A garota nitidamente abalada. Pessoas correndo atrás e atirando. É, isso realmente deve atrair um par de olhares curiosos de qualquer taxista. Mas a providencia já estava tomada.
Atravessamos toda a extensão do parque. Sempre o mesmo parque. Onde vi a garota pela primeira vez, onde ela se perdera, onde eu encontrei um gato, e agora, uso ele para despistar o repentino interesse do motorista do táxi, e como um atraso para os capangas, caso eles quisessem me procurar por esse tal taxista.
Seguimos praça à cima, devagar. As imagens passam ao meu lado. As imagens de coisas que vivi aqui. As pessoas andando, apenas imagens meio translúcidas geradas por minha mente.
Enfim, chegamos à parte norte, beirada por árvores e bancos de madeira.
Vejo um taxista e então entramos no carro.
Indico o lugar onde quero ir. Ele vai, quando atinge as ruas que levam para o bairro onde moro, elas se mostram desertas.
O dia já vai a seu fim de entardecer, quando o táxi encosta na portaria do prédio. Pago a corrida e agradeço.
‘’Bem, chegamos.’’ Digo, acordando a garota, que no fim do caminho tinha caído em um estado de torpor.
Saímos e nos direcionamos entrada. O porteiro, Sr. Mario, abre o portão. Seu olhar espantado.
‘’O que aconteceu, garoto? Algum problema?’’
‘’Muitos...’’ Digo, com um pequeno sorriso. ‘’Se alguém vier me procurar, diga tudo que sabe. Esconder fatos pode ser perigoso, Sr. Mario, e não quero te prejudicar.’’
Ele congela. Absorvendo minhas palavras e entendendo que eu estava em algo arriscado. Então ele confirma, um único aceno com a cabeça.
Ele, já em seus sessenta e tantos anos, é um homem, alto e careca, e com estrutura física bem fina.
‘’Obrigado pelo aviso, Bruno.’’
‘’Bem, é o mínimo que posso fazer, já que estou trazendo o perigo na minha cola para cá.’’
Chamo o elevador, que para minha total surpresa, ainda funciona. Ele vem, estalando andares a baixo. A porta abre. Dou boa noite ao porteiro, que ainda me olhava, e então entramos.
A agulha do mostrador de andares, algo bem antigo, que já não é muito comum atualmente, vai caminhando lentamente.
Sofie está em silêncio desde que passamos pelo parque. Talvez ele também tenha trago memórias a ela, memórias não muito acolhedoras.
Seu braço toca o meu. Ela está gelada. O vento começara a uivar lá fora antes de chegarmos à portaria. O outono já vai a sua segunda metade.
Olho para ela. Ela estava fixa em mim.
‘’Eu me esqueci de te agradecer...’’ Ela sussurra.
‘’Não precisa me agradecer por nada.’’
‘’Mas eu te coloquei em risco.’’
‘’Não, a verdade é que eu procurei esse risco.’’
Ela parece querer dizer algo mais, mas balança a cabeça, espantando a ideia.
O elevador apita, a agulha havia chegado ao ponto exato do quarto andar. A porta se abre. Saímos. Ela ainda meio desequilibrada.
Abro a porta do nº 23.
Um miado forte quebra o silêncio, assim que abro a porta. Oren vem correndo. Assim que entramos tranco a porta. Sofie parece estar mais feliz, ela senta no tapete da sala e afaga Oren, que esta agora ronronando.
‘’Esqueci de dizer que estava com seu gato.’’
Ela apenas me olha por uns instantes. Vou para a cozinha e começo a pegar coisas na geladeira.
‘’Afinal, de onde surgiu esse nome? Oren?’’
‘’É galês. Significa laranja.’’ Ela diz e então ri.
Coloco algumas coisas no fogão e então ligo-o. Pego a ração de Oren e vou para a sala, com o pote na mão. Abaixo e coloco perto dele.
Sofie ainda me olha.
‘’Bem... É um apartamento pequeno. Sala, cozinha, ‘’ Digo, indicando cada lugar. ‘’O quarto na primeira porta, e o banheiro no fim do corredor.’’
‘’É aconchegante e bem arrumado.’’ Ela diz, tentando se levantar.
‘’O que deseja?’’ Ajudo-a a se equilibrar sobre os pés.
‘’Acho que eu preciso de um banho.’’ Ela diz e fica olhando para mim, parada.
‘’Fique à vontade.’’ Digo, rindo.
Vou para o quarto. Abro o guarda roupas. Pego uma toalha branca, limpa. Quando m e viro vejo que ela está apoiada na porta.
‘’Vejo que já está andando um pouco melhor. Bem, aqui está uma toalha. Se quiser procurar alguma coisa limpa para vestir, na primeira gaveta tem camisas, na segunda tem calças, nas outras tem quinquilharias.’’ Abro uma e mostro que está cheia de filmes para máquinas fotográficas. ‘’Então, fique à vontade, talvez ache alguma coisa nas outras portas.’’
Volto para a cozinha, deixando-a olhando para o guarda roupa. Oren ainda está comendo. Os alimentos no fogão estão estalando. Desligo o fogo. Abro a geladeira novamente e pego alguns legumes.
O som do chuveiro ligado se faz presente.
Não obstante, o chiado não permanece por tanto tempo.
Um pouco antes que a refeição fique pronta ela surge. Esta usando uma das minhas muitas camisas de manga longa, e sua própria calça.
‘’Ah, acabei de me lembrar. Eu devo ter alguma coisa da minha mãe em umas caixas na despensa.’’
Vou até uma porta um pouco escondida perto da cozinha. Abro e entro em um pequeno cômodo. Algumas caixas estão empilhadas. Na maioria coisas que pertenciam aos meus pais que não tive coragem ou não tive como me desfazer.
Volto com um punhado de roupas.
‘’Se você não ligar de as roupas estarem guardadas há muito tempo..’’ Algumas gotas tentam passar por meus olhos. ‘’Em todos os casos, elas estão limpas.’’
Ela pega as roupas e caminha lentamente para o quarto. Depois volta com uma calça preta que era da minha mãe. Mas continua com a mesma camisa azul.
‘’Eu gostei dessa camisa.’’ Diz quando me vê olhando para ela.
‘’Que bom.’’ Sorrio. ‘’A refeição está pronta.’’
Ela come em silêncio, processando todos os acontecimentos. É isso que imagino vendo seu semblante.
Como apenas um pouco, e vou para o quarto. Entro e encontro as roupas dobradas à beira da cama. Havia um cordão por obre elas. Era um cordão da minha mãe, algo bem antigo, prata. Um pingente em forma de asas abertas.
As lágrimas ainda querem sair, agora mais fortes.
Guardo as roupas em uma das gavetas e começo a preparar a cama.
Quando Sofie aparece na porta, algumas lágrimas estão escorrendo.
‘’O que foi?’’
‘’Nada demais...’’ Passo as costas da mão secando as lágrimas. ‘’Esse colar. Quer ficar com ele?’’
‘’Nã..’’ Ela começa a dizer.
‘’Não, por favor. Estava perdido lá. Os outros, eu me desfiz de todos.’’
‘’Ele é bonito. Mas se você quer mesmo se desfazer dele, eu aceito. Obrigada.’’
Ela pega o cordão, coloca no pescoço e então, o esconde por debaixo da blusa.
‘’Eu que agradeço. Então, quando você quiser dormir... fique à vontade. Amanhã eu respondo todas suas perguntas.’’
Ela aceita a sugestão e então eu vou para a sala.
‘’Boa noite, então.’’ Ela diz quando passo pela porta. ‘’Bruno’’
‘’Boa noite, Sofie. Se precisar de algo, me chame.’’
Quando chego à sala, as lágrimas já passaram. Junto tudo.
Abro meu notebook sobre a mesa e então começo um trabalho de tradução, noite à dentro...
‘’Que bom.’’ Sorrio. ‘’A refeição está pronta.’’
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Acho que ele está entrando em uma enrascada. Alguma coisa me diz (sei lá, pressentimento)que Sofie não é uma simples garota em uma furada. Em algo grande ela está metida, e Bruno será o efeito colateral. Isso me deixa muito curioso. Por um momento achei que ela fosse escapar... mas aí ela fica e parece que vai aceitar o fato de ser ajudada por um estranho. Pode ser o pânico do momento, então ela se sente segura ficando, ou ela fica para pesquisar sobre Bruno e porque ele está envolvido nisso. Com certeza terá um relacionamento entre os dois... lol --- minhas deduções, adoro fazer isso.
ResponderExcluirAGORA QUERO VER O DESENROLAR DISSO!
u.u isso que dá ter leitores inteligentes kkkkk vou ter que pensar em algo muito mais sofisticado pra deixar misterioso. Suas deduções são boas, mas não vou falar nada pq ainda nem defini tão bem nada kkk e Obrigado Natan o/
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