sexta-feira, 9 de março de 2012

Capítulo IV

     A chuva havia passado. O laranja do por do sol me acompanha e me fascina, durante todo o percurso para casa.
     Oren me recebe com um ronronar. A comida do pote havia acabado. Preencho-o e lhe dou um pouco de leite.
     Vou para o quarto. Pego o aparelho e testo as baterias. A primeira não gera efeito algum. Coloco a segunda e essa parece fazer o aparelho ligar. Mas mesmo assim, nada aparece na tela.
     Depois de um bom tempo, consigo trocar o visor pelo que estava inteiro em um dos outros aparelhos.
     Finalmente, com a tela e a bateria trocadas, o aparelho liga.
     Ele carrega, e então, surge na tela quatro quadrados flutuantes ao topo e o espaço restante da tela é tomado por um teclado virtual.
     ‘’Senha...’’
     Isso ainda não tinha passado pela minha cabeça.
     ‘’É claro que há uma senha...’’
     Há o quê? 456 mil 976 senhas possíveis, sem conhecer a pessoa? Minhas chances são minúsculas.
     Desligo-o, para a bateria não ser consumida e resolvo me focar em traduzir o documento.
     Nesse momento, minha barriga acusa a falta de alimentação.
     Vou até a cozinha para preparar um sanduíche com um copo de suco de laranja.
     Oren, o gato, vem aos meus pés e começa a se esfregar em minhas pernas e a ronronar.
     Quando olho para ele, ele está começando a rolar pelo chão, sua coleira brilha com a luz e então sou atingido pelas letras de seu nome, como em um caleidoscópio.
     As quatro letras me abalam. Largo o prato com o protótipo de um de um sanduíche e vou correndo para o aparelho. De alguma forma eu fantasio que o nome de um gato abandonado em um parque vai me salvar.
     Paro no meio do caminho.
     ‘’Como eu posso ser tão idiota ao ponto de cogitar algo assim?’’
     Volto e monto minha refeição. Só então volto ao quarto. O aparelho, em cima da mesinha, parece irradiar aos meus olhos. A ansiedade e a curiosidade me vencem.
     Pego o aparelho. Ligo. Os quatro espaços retornam. Digito sequencialmente: ‘’O R E N’’.
     O aparelho se apaga
     Me culpo pela falta de inteligência da minha parte. Jogo o aparelho sobre a cama e quando toco no prato, uma voz quase me faz derrubá-lo ao chão.
     ‘’Usuária: Sofie. Bem vinda!’’ Uma voz doce e leve.
     Meu coração acelera ainda mais.
     Corro e pego o aparelho. Há uma imagem ao fundo. É a garota misteriosa, Sofie?, e junto a ela, um pequeno gato laranja. Sua coleira indica ser o mesmo gato que acabara de entrar em meu quarto, o mesmo que é a chave para o aparelho.
     Vou à fundo em todas as ramificações das pastas existentes. Leio cada pequeno texto, cada documento, vejo as imagens e tudo mais.
     Por fim, acabo. Olho para o relógio. Quase três horas desde que comecei a vasculhar o aparelho.
     Havia comido o lanche. Agora minha cabeça precisava processar todos os fatos. E descansar. Há três dias, desde que encontrei Oren, minha vida teve muitas mudanças.
     Levo o prato e o copo para a pia. Volto, apago as luzes e deito.
     As informações começam a fluir.
     É estranho o fato de conter tantas informações sobre ela no aparelho. Por mais que ele fosse pessoas, o aparelho era pra uso empresarial.
     Seu nome é Sofie. Morava em um apartamento, o número 17, terceiro andar, em um bairro de classe média. Isso antes de ser capturada e ser levada sabe-se lá para onde.
     No meio desses pensamentos o sono vem e acabo dormindo.
--------------- // ---------------
     Acordo às 8h, com lambidas insistentes em minha mão.
     Minha cabeça está doendo.
     Levanto, coloco ração para Oren e vou para debaixo do chuveiro.
     A água me ajuda a despertar.
     Saio depois de meia hora. Pela janela vejo um dia muito bonito. Limpo, sem sinais da chuva de ontem. Um ótimo domingo para aproveitar.
     Olho em cima da mesa e vejo o aparelho. O tomo nas mãos e descubro que eu o havia deixado ligado. A bateria acusa estar pela metade.
     Então me lembro de que tinha descoberto onde ela morava. Provavelmente, lá eu encontrarei um meio para carrega-lo. Mais um motivo que circula pela minha mente para eu poder visitar aquele lugar. Talvez eu encontre mais pistas sobre ela e sobre a organização. O Aparelho só conta pequenas coisas.
     Tomo uma boa dose de cafeína, pego o essencial e vou. Dessa vez levo junto o notebook, assim, mesmo que, de alguma forma, eles descobrirem onde eu moro, não encontrarão nada que me compromete.
     O lugar onde a garota, Sofie, mora é do lado oposto da cidade. Então, entro em um ônibus, quase completamente vazio.
     Aproveito e ligo o notebook.
     Acesso um aplicativo da área de trabalho. Ele me abre uma janela de login. Digito as informações e sou mandado a uma pasta.
     Nessa pasta estão as imagens do meu encontro acidental com Raphael e seus capangas.
     É assim que funciona meu pequeno aparelho acoplado à câmera fotográfica. Se eu o ativar, as fotos que eu tirar são processadas por ele, então ele às envia via internet para esse aplicativo, que eu mesmo criei, em meu computador e então as salva. Após isso, o próprio aparelho deleta as originais da câmera, e, assim, se eu for pego, as fotos, e eu, estão à salvo.
     As fotos ficaram boas. Dá para reconhecer cada um dos três. A placa do caro de Raphael é uma surpresa interessante. A placa do outro carro também foi fotografada. O logo é realmente o mesmo do documento.
     Não estou longe da rua onde Sofie mora. Guardo meu notebook e desço do ônibus e me direciono até o lugar.
     Paro bem em frente ao apartamento, do outro lado da rua. O movimento é fraco por ali. Um porteiro verifica que se aproxima do prédio. Não há nenhuma chance de passar por ele sem que ele me identifique e posteriormente, me descreva se os capangas de Raphael vierem.
     Dou a volta no quarteirão, percebo escadas de saída de emergência brotando das janelas dos fundos, elas desembocam em um lugar aberto que leva para o estacionamento. Este lugar também está vigiado.
     Um carro alto e grande se aproxima do portão, o lado esquerdo, do motorista, voltado para a guarita de entrada. O lado oposto, fora do campo de visão, tanto do motorista quanto do vigia, que agora está entretido conversando com o morador.
     Me abaixo e caminho rápido de encontro a lateral do carro. Me seguro a maçaneta e coloco os pés em uma aba da porta. O carro volta a andar e eu quase caio.
     Por sorte o motorista vai até o estacionamento subterrâneo. Antes mesmo de o carro parar, pulo e me escondo atrás de uma das vigas de sustentação.
     Vejo a escadaria, logo ao lado do elevador. Espero um pouco. O motorista estaciona, e então se direciona até o elevador. Assim que a porta se fecha, saio correndo para as escadas.
     Subo até o terceiro andar, abro a porta que sai para o corredor e espio, não há ninguém por ali.
     Então encontro o apartamento de número 17. Era um no fim do corredor. Claro, a porta está trancada.
     Mas, como pude ver lá de baixo, da janela do andar é possível se chegar às escadas de emergência.
     Saio por ela e com todo cuidado me direciono para o ar livre. Pulo para a grade da escada do apartamento 17 e me seguro sem apoio. Com esforço subo e olho para baixo. O vigia não me vira. Vou até a janela e para minha surpresa, ela está destrancada. Então a levanto e pulo para dentro, sem saber o que pode me esperar, nem como iria sair.

Nenhum comentário:

Postar um comentário