segunda-feira, 5 de março de 2012

Capítulo II

     A chuva é fraca e não atrapalha meu caminhar, sem proteção contra suas gélidas gotas. Meus equipamentos não correm perigo de sofrer avarias. A mochila é impermeável.
     Vou andando. Um longo caminho desda a parte esquecida da cidade até a parte antiga.
     O bairro onde moro foi local de uma grande banalidade a décadas atrás. Uma morte daquelas que chocam os moradores, faz com que eles resolvam se mudar e faz com que a área perca valor comercial.
     Já o bairro antigo, com sua arquitetura clássica, tem uma grande extensão. Um bosque e o principal cemitério. O fato de estar me encaminhando para lá não é para tirar fotos de túmulos, muito menos de cadáveres. O alvo é a Capela, localizada ao topo do cemitério, dotada de grande beleza e, o mais importante, de história. Essa história seria estendida a um ou outro mausoléu de uma família importante.
     Um cemitério. Onde a história para, mas nunca morre.

     O cemitério está vazio, como era de se imaginar. A chuva para, mas as nuvens ainda estão pesadas.
     Pego a câmera e começo minha preparação, já dentro da capela.
     O processo de fotografia leva cerca de duas horas. Nesse momento a chuva já está de volta. Falta apenas imagens de alguns ''Templos'' familiares. Terei de esperar a chuva passar, mas a certeza de que hoje choveria foi a verdadeira razão pela escolha de vir hoje fazer essas fotos. O tom acinzentado e a perspectiva de umidade fazem com que as fotografias adquiram uma qualidade natural.
     Chego, finalmente, aos túmulos dos meus pais. O líquido que escorre pela minha face adquire um sabor amargo, salgado.
     Falo algumas palavras espontâneas. Enxugo as lágrimas e vou. Vou porque a dor daquele momento sempre me aflige mais que o esperado. As lágrimas sempre brotam e depois a garganta se fecha, dolorida. Os olhos começam a ficar turvos e então eles também tendem a se fechar. As lágrimas saem incontroladas, deixam os olhos atordoados e vão para o chão, vão de encontro ao que as provocam. E então, a única coisa que você pode fazer no momento é fugir. Sair daquele lugar frio. Da solidão presente em cada canto. Da amargura que fica presente no olhar, quando se perde alguém. Da escuridão que tenta te prender em seu interior. Você foge, e foge de você mesmo.
     Chego aos mausoléus da lista do que eu tinha que tirar fotos. Eles estão próximos a entrada do cemitério.
     Fotografo os principais adornos arquitetônicos. Então percebo. Um carro preto parado à entrada.
     O motorista sai e abre a porta de trás. Abre um guarda chuva e só então um homem de certa idade e de roupas claramente caras, – terno preto e sapatos de bico fino, talvez até italianos – levanta de dentro do carro.
     Essa cena nada tinha de estranha.
     A meu ver, um homem rico vindo ver o túmulo de um parente morto. Então o cenário muda.
     Novamente um carro preto em alta velocidade quebra toda a estática. Minha mente, que acaba funcionando igual a uma câmera, se adapta aos pequenos detalhes da imagem em movimento. Na mesma hora que o carro entra em foco, um lampejo me mostra o rapto da garota misteriosa.
     Para minha surpresa, o carro de agora era, possivelmente, o mesmo da outra tarde.
     Tenho a certeza quando os ocupantes dele descem. Trajando as mesmas roupas pretas com logotipo da Deaco Technology. Eles caminham em direção ao outro homem, que agora os espera próximo ao portão de entrada.
     Agora eu coloco em prática um item de muito tempo de pesquisas. Um pequeno aparelho que desenvolvi. O projeto principal eu fiz durante o último ano da minha estadia no orfanato. Foi logo após eu começar a fotografar. Essa ideia veio e nunca achei que fosse usá-la, mas ela estava sendo aplicada.
     O aparelho é acoplado a máquina. Algumas modificações tiveram que ser feitas nela também. E então, eu começo a fotografar o encontro nada casual que estava ocorrendo.
     Eles não me viram e suas vozes estavam exaltadas.
     ''O que vocês me trazem?'' - Exige o homem de terno.
     ''As coisas não estão tão boas assim não, Raphael.'' - Diz um dos empregados.
     ''Ela não está colaborando. E há arquivos faltando, não estão todos com ela.'' - Tenta explicar o outro.
     ''Não estou interessado em suas desculpas. Vocês estão falhando comigo...'' - O comentário do homem, chamado Raphael, morre.
     ''Mas, senhor. O aparelho não se encontra com ela! Nós já reviramos o apartamento da Sofie e ele também não está lá.''
     ''E ela não fala onde está. Ela diz que estava com ela na hora que a pegamos. O que você quer que nós façamos agora?''
     ''Eu quero que vocês consigam algo produtivo pelo menos uma vez na vida!'' - Ele diz e faz uma pausa. Um pacote pardo é passado para ele. Tiro umas fotos. Desativo meu aparelho e fotografo mais algumas figuras do mausoléu.
     ''Pelo menos vocês não são incompetentes ao extremo...'' - Raphael então nota minha presença. Mas já era tarde. Eu estava saindo naturalmente, tirando algumas fotos da faixada do cemitério.
     Ele permanece parado, me medindo de cima à baixo, quando eu me viro e ajo como se os visse pela primeira vez.
     ''Boa tarde, senhores.'' - Os cumprimento.
     ''Quem é você?!'' - Sou impelido bruscamente ao chão após essas palavras, vindas de Raphael.
     ''Apenas um fotógrafo em serviço. Meu nome é Bruno!'' - Isso é comprovado quando eles recolhem meus documentos e verificam minha origem.
     ''E de que você estava recolhendo imagens, Bruno?'' - Isso vem como uma acusação. Não respondo. O fato é: tente dar um motivo para não duvidarem de você e vão duvidar ainda mais. Dê um motivo e eles acabam duvidando de forma menos violenta.
     O rapaz que me derrubou e me pressionava contra o chão passa meu equipamento ao outro. Este o liga e verifica as fotos. Nada além de pilastras e vitrais. Do início ao fim.
     Ele me levanta. Pedindo desculpas. Me devolve minha carteira enquanto Raphael exige ver as fotografias. Ele se convence que sou inocente neste fato. Mas mesmo assim faz um pequeno interrogatório.
     ''O que você ouviu, garoto?''
     ''Só vozes abafadas quando eu estava vindo embora. Quando eu cheguei aqui na saída, já estava tudo quieto.'' - Digo em tom de observador. ''Vocês são estranhos. Até parecem culpados de alguma coisa. Me desculpem mas eu tenho hora marcada com meu editor. Se me permitirem, eu preciso ir.''
     Ele me considera. Parece imaginar que se não me deixar ir o mais rápido possível, eu posso começar a fazer suposições. Me devolve o equipamento, e solta um pedido de desculpas entre os dentes.
     Me despeço e começo a caminhar. Minha mente fervilha. Fatores novos, sendo que os 'antigos' eu ainda não havia analisado ao máximo.
     Percebo que realmente parece que o destino quer que eu interva sobre os acontecimentos.
     A chuva aumenta e sou obrigado a correr, em um misto de pressa e ansiedade.

4 comentários:

  1. Essas tramas cheias de mistérios sempre me deixam ansioso.

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    1. Então pode esperar uma grande reviravolta hein ^^ Vamos ver se você vai gostar o/

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  2. Estou esperando que me prenda até o final. Estou confiante! Sua capacidade já foi mostrada. Escreve muito bem!

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